segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Estudantes no Chile a luta pela Educação “Pública, de qualidade e gratuita”


O texto dessa semana é sobre as manifestações dos estudantes no Chile, iniciada no dia 24 de agosto com o primeiro “Paro Nacional”, onde cerca de 50% dos trabalhadores pararam. Os estudantes protestam contra o sistema de privatização da educação em todos os níveis implementado da ditadura Pinochet. Veja também uma entrevista com a estudante Amanda Rozas, membro do FR-IC (FR-Esquerda Comunista) sobre a situação da crise na educação chilena.

No dia 8 de setembro os estudantes não houve acordo com as propostas do governo e organizam nova paralisação na próxima quinta.

Foto: Gabrielle Ferrara.


Texto de Antonio Luiz M. C. Costa publicado na Carta Capital.

Os indignados do Sul

Embora a economia cresça, a juventude põe em questão o neoliberalismo sem mobilidade social legado por Pinochet. Foto: Martin Bernett/AFP

Os indignados do Chile, segundo o falido pensamento único, não deviam existir. Pois o país- não era a vitrine do neoliberalismo, um sucesso sob todos os pontos de vista? O crescimento econômico não vai mal: ainda se aposta oficialmente em mais de 6%, quando a média esperada para a América Latina, segundo a Cepal, é de 4,4%, e o Brasil projeta 3,7%.

Mas o Peru tem crescido ainda mais – deve superar os 7% em 2011 – em meio a protestos sociais e seus últimos governos têm terminado com baixíssima popularidade. No Chile, como no Peru, uma parte excessiva do crescimento beneficia apenas as empresas estrangeiras e a elite, enquanto muitos veem sua fatia diminuir em termos relativos ou estagnar em termos absolutos, sem perspectiva de melhora. Ao contrário do Brasil, que, apesar do desempenho mediano do PIB, proporcionou forte crescimento às regiões e camadas mais pobres, resultando em um governo popular e na queda do índice de desigualdade de Gini de 0,59, em 2001, para 0,53, em 2010, enquanto o do Chile estagnou em perto de 0,55, desde os anos 1990.

O estopim foi a educação. A legitimidade de uma sociedade capitalista moderna depende da crença na mobilidade social vinculada à iniciativa e ao mérito, que por sua vez exige que se acredite que a educação pública pode proporcionar essa oportunidade a todos que a mereçam.

Mas a transformação do Chile em campo de provas do neoliberalismo pelo falecido ditador Augusto Pinochet e seus assessores da Escola de Chicago desmantelou boa parte da educação gratuita para subsidiar o ensino privado pago. O país gasta 3,7% do PIB com educação (ante 6,5% da Argentina e 5,4% do Brasil em 2010, este devendo chegar a 7% em 2011), enquanto os gastos privados são de 2,7% (ante 1,3% no Brasil).

As subvenções, proporcionais ao número de alunos presentes nas aulas, representam 60% do gasto do Ministério da Educação. Segundo Milton Friedman, o sistema que idealizou promoveria a concorrência e proporcionaria livre escolha entre escolas públicas e privadas. Na prática, reproduz e amplia as desigualdades.

As melhores escolas privadas subvencionadas burlam as exigências oficiais e vetam alunos de origem humilde para garantir seu desempenho e perfil social, mesmo que suas famílias queiram pagar as taxas adicionais, até -quatro -vezes superiores ao valor subvencionado. Continuam tão elitistas quanto antes – só que as elites agora pagam menos do que poderiam, graças à subvenção que sai dos bolsos de todos os chilenos, inclusive os mais pobres.

Ao mesmo tempo, nas escolas públicas, que deixam de ser gratuitas a partir do ensino médio, a soma das mensalidades pagas pelos pais com a subvenção por presença é insuficiente, inclusive porque esses alunos faltam mais. É pior nos bairros e municípios pobres, se as prefeituras não dão subsídios além dos nacionais e não há empresas privadas para patrocinar o ensino técnico. Material escolar e uniformes (obrigatórios em todas as escolas) também são pagos. As famílias pobres demais para pagar são em tese isentas de contribuição, mas são pressionadas, humilhadas e na prática excluídas.

Para os estudantes liderados por Vallejo (acima), a educação os restringe, em vez de abrir de abrir perspectivas. Foto: Martin Bernett/AFP

Não há ensino superior gratuito e os alunos sem recursos têm de recorrer ao crédito educativo e arcar com dívidas da ordem de 30 mil dólares a juros de 5% ou mais, que levarão até 20 anos para pagar. Naturalmente, os desfavorecidos nos ensinos fundamental e médio têm dificuldades em conseguir um ensino superior de boa qualidade – ou de qualquer qualidade –, terão mais dificuldades para pagar e, mesmo que tenham boas notas, serão preteridos no mercado de trabalho em favor daqueles que cursaram “boas” escolas. O tratamento pretensamente igual dos desiguais agrava a desigualdade.

O primeiro grande protesto estudantil, a Revolta dos Pinguins (alusão ao uniforme característico dos estudantes chilenos) aconteceu em 2006, mas este ano alcançaram proporções muito maiores. Ao descontentamento da juventude politizada com o conservador Sebastián Piñera somaram-se o mau desempenho do governo ao socorrer os desabrigados pelo terremoto de fevereiro de 2010 e sua arrogância repressiva no trato com manifestantes, inclusive indígenas que reivindicaram a devolução de suas terras e ambientalistas que protestam contra novas represas na Patagônia.

“Nada é de graça nesta vida”, respondeu às exigências de ensino gratuito quando as mobilizações cresceram, apesar da promessa de bolsas de estudo para os 40% de estudantes mais pobres – e elas cresceram mais ainda. Desde junho, grande parte das escolas está parada, muitas delas ocupadas. Manifestações mobilizam centenas de milhares de estudantes, pais e professores a cada vez. Pelo menos 30 estudantes estão em greve de fome há seis semanas. A CUT chilena somou seu apoio e suas reivindicações, paralisando o serviço público nos dias 24 e 25 de agosto. Indígenas e ambientalistas também trazem as suas e as propostas convergem na reivindicação de uma ampla reforma constitucional para varrer o entulho pinochetista e concluir a transição iniciada em 1988.

A direita, que esperou 20 anos pela oportunidade de voltar a radicalizar o modelo social e econômico amenizado pela Concertación, não se conforma em ver a oportunidade escapar em menos de dois anos de governo. Se mata a la perra y se acaba la leva, tuitou a secretária-executiva do Conselho do Livro, no Ministério da Cultura, referindo-se à líder estudantil Camila Vallejo, porta-voz mais visível dos protestos e repetindo uma frase de Pinochet usada em relação a Salvador Allende. Outros funcionários se encarregaram de divulgar o endereço e telefone da presidenta do diretório estudantil da Universidade do Chile e fazer ameaças mais explícitas.

Vallejo recebeu oficialmente proteção da polícia. Que tentou esconder que baleou e matou um adolescente de 16 anos que acompanhou o irmão cadeirante aos protestos do dia 25. Depois que o comando alegou que o tiro partira dos manifestantes e se recusou a investigar, um carabineiro denunciou um colega, resultando na prisão deste e no afastamento de seus superiores. Como todo o sistema chileno, também a polícia está em questão. •

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Movimento grevista avança nas universidades federais

A postagem desta semana é um texto de Ricardo Prestes Pazello falando sobre a situação da greve nas Universidades Federais.

Fonte: Brasil de Fato.



O mais importante em uma conjuntura de greve é reunir os atores que constituem a educação universitária

01/09/2011


Construir um movimento grevista, em uma época em que o pensamento único se institucionalizou quase completamente, é muito difícil. Ainda que suas reivindicações sejam as mais legítimas. Mesmo assim, a atual conjuntura brasileira tem propiciado alguns esboços importantes dos trabalhadores em suas mobilizações. Desde junho de 2011, o movimento docente das universidades federais tem dado mostras de que o velho monstro adormecido pode levantar a cabeça a qualquer momento e continuar sua luta por condições dignas para o trabalho na educação superior.

Embora o movimento docente brasileiro não esteja completamente unificado (existem dois sindicatos nacionais, Andes e Proifes), têm repercutido nacionalmente as recentes mobilizações dos professores no sentido de construírem uma greve nacional. Em várias assembléias tem-se decidido por indicativos e deflagrações de greve. Em três universidades federais, a greve já foi deflagrada; em mais de uma dezena delas, há o indicativo da greve; as demais ainda estão por realizar suas assembléias gerais.

A greve na UFPR

Em uma das universidades federais mais conservadoras do país, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a greve foi recém-deflagrada, tendo sido a segunda no país a efetivar sua decisão. Depois da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que iniciou sua greve em 26 de junho, é a UFPR que continua o processo de greve, tendo paralisado as atividades docentes no dia 19 de julho. Logo em seguida, foi sucedida pela Universidade Federal do Mato Grosso, no dia 25.

Por mais que o movimento paredista tenha se desenvolvido para conseguir ganhos concretos no contexto da aprovação da Lei Orçamentária, que tem sua data limite de votação no dia 31 de agosto, ele se apresenta como uma mobilização que não se restringe a uma pauta meramente corporativista, em que o objetivo maior é o aumento salarial. Sem dúvida, este é muito importante, mas há muito mais coisas em jogo.

Em abril, a Andes procurou iniciar as negociações com o governo federal, no entanto apenas em julho teve início alguma forma de retorno. Frente às demandas dos professores federais, o governo propôs soluções marginais ao problema enfrentado pelos docentes, inclusive no âmbito salarial. Primeiramente, sugeriu criar mais um conjunto de níveis na carreira dos docentes, hoje já composta por 17 níveis. Seriam, portanto, 21 níveis. No entanto, a rejeição desta proposta foi ampla, uma vez que não resolvia os problemas concretos do professorado, além de jogar para o futuro um aumento salarial para uma parcela minoritária do corpo docente.

Outra resposta foi a chamada “proposta limite”, em que se realizaria uma incorporação de uma das duas gratificações que constituem o holerite dos professores ao seu vencimento básico e um reajuste salarial de 4%. Ainda que nacionalmente a proposta possa vir a ser aceita pelo conjunto das associações docentes (ADs) e mesmo pelo sindicato nacional, na UFPR decidiu-se pela recusa.

A decisão ocorreu após acalorada assembléia geral da categoria, em Curitiba, 23 de agosto, em que houve ponderação acerca de algumas soluções de compromisso que a proposta também trazia (como necessidade de reestruturação da carreira e equiparação salarial com os funcionários públicos das áreas da ciência e tecnologia não vinculados às universidades). Por maioria de votos, os professores da UFPR optaram por rejeitar o pequeno reajuste do governo.

Esta assembléia é a quarta realizada pelo movimento docente da UFPR. Em nenhuma delas houve um quórum menor que 250 e professores, um feito para a instituição que vivenciou sua última greve há 10 anos, em 2001. O que explica a crescente mobilização dos professores, mesmo diante de um cenário pouco propício a vitórias salariais e estruturais no plano nacional, é o acúmulo de pendências locais, que acabam agravando os problemas que são de âmbito federal.

Segundo o presidente da Associação dos Professores da UFPR (APUFPR), Luis Allan Künzle, mesmo que não haja uma greve nacional, a pauta local merece ser resolvida. Assim, internamente, os professores da UFPR têm reivindicado mecanismos de agilidade e transparência na progressão da carreira, limitação da carga horária em sala de aula – já que universidade não é sinônimo apenas de ensino, mas também de pesquisa e extensão – e do número de estudantes em sala, assim como correção em distorções levadas a cabo com a implementação dos projetos de expansão das vagas estudantis na universidade, como o programa Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).

Dessa forma, mesmo que não haja forte adesão nacional à greve dos professores, localmente as pautas internas permitem a continuidade da mobilização e da paralisação das atividades docentes.

A dimensão comunitária da greve nas universidades federais

O mais importante, entretanto, em uma conjuntura de greve no seio da universidade pública, é reunir os professores com os demais atores que constituem a educação universitária. Na UFPR, esta necessidade se concretizou. Depois de uma assembléia geral comunitária com mais de 700 professores, servidores e estudantes no Teatro da Reitoria, o movimento grevista se unificou. Os servidores técnico-administrativos já estavam em processo de greve desde 15 de junho e os estudantes também haviam deflagrado o seu processo político de greve, a 4 de agosto.

A luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade se unificou, mostrando a importância dos servidores para a gestão e organização da universidade, bem como o protagonismo estudantil no processo educativo.

A pauta unificada permitiu observar a totalidade do processo de desmonte da universidade pública, já que as reivindicações passam por melhoria na estrutura dos prédios, dos acervos bibliográficos ou nas condições laboratoriais, bem como por questões centrais ao mundo do trabalho, como precarização e terceirização do serviço público, frente aos quais o movimento se contrapõe, ou necessidade de aumento de bolsas e de contratações, para não falar nas históricas demandas por democracia, a partir de paridade qualificada, nas instâncias consultivas e deliberativas da universidade.

Limites e alcances do direito de greve

Ainda que o movimento grevista não atinja seus objetivos mais imediatos, ele tem permitido gestar um horizonte importante na luta popular. Reivindicando, nacionalmente, os 10% do PIB para a educação pública, a mobilização coloca em primeiro plano a necessidade de acesso à educação e distribuição equânime da riqueza do país.

Para a professora Shirley Andrade, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), a primeira universidade federal que assistiu a seus docentes deflagrando greve, percebe-se uma grande indignação com a forma como se vem encaminhando a educação brasileira: “neste momento emergencial somente estamos discutindo a questão salarial e ainda assim há todo este desrespeito”, disse a professora, referindo-se à proposta limite do governo.

As greves de técnicos e professores ainda põem em destaque outros problemas que afligem o mundo do trabalho e as relações sindicais, no Brasil. Por um lado, há ênfase de todos esses movimentos em repelir vários projetos de lei (PLs) que abrem brechas para a privatização do espaço público, como o PL 1749/2011, que privatiza a saúde e a educação, precarizando o SUS e os hospitais universitários; o PL 92/2007, que regula as fundações estatais de direito privado; e o PL 549/2009, que permite congelar os salários dos servidores públicos por 10 anos.

Por outra parte, a questão sindical aparece como o alvo preferido das classes dominantes do país, dentro dos três poderes. Especialmente, no Judiciário, ao haver julgamento sobre a legalidade das greves, costuma-se restringir o conteúdo e alcance do movimento grevista por decisão judicial. Ou, ainda, se estimular atos antissindicais, que acabam por perseguir e desmobilizar os trabalhadores.

Também, o incentivo à utilização de artimanhas jurídicas como a da ordem do “Interdito proibitório”, ato pelo qual se pode proibir uma greve antes mesmo dela ocorrer. Por fim, no caso específico do serviço público, considerá-lo como essencial e, por decorrência, não passível de paralisação dos trabalhadores, fato que ocorreu com os servidores técnico-administrativos da UFPR, impelidos a retomarem 50% de suas atividades por desempenharem uma função essencial.

O direito de greve põe a nu a totalidade das relações políticas que colonizam as decisões jurídicas. É a greve uma conquista dos trabalhadores e não pode ser ofuscada pelas classes dirigentes do país, tanto mais quando se trata de educação pública.

domingo, 28 de agosto de 2011

Apoio a PLC 122 e a Defesa ao Estado Laico.

A PLC 122 é conhecida como a lei anti-homofobia porém ela é mais ampla e criminaliza vários tipos de preconceito.
A lei foi inicialmente proposta pela ex deputada federal Iara Bernardi, atual aluna de pós graduação na UFSCar Sorocaba.
Para conhecer melhor a lei acesse o portal anti-homofobia ou a home-page oficial do projeto de lei, o link está no final desta postagem.
A falsa polêmica da lei é que uma parcela de evangélicos conservadores afirmam que a lei impede que eles se manifestem. E é verdade se a manifestação for preconceituosa ela será crime assim como já acontece com o preconceito racial. Ou seja muitos conservadores querem ter o direito de explicitar seu preconceito contra uma parcela da população. Não tem haver com religião, tem haver com preconceito e incitação ao preconceito.
Acredito que se todos soubessem que é uma lei contra o preconceito muita bobagem que lemos na Internet sobre "mordaça gay" ou mesmo "ditadura gay" não teriam repercussão, mas uma parcela da mídia, políticos e de pastores conservadores apostam na desinformação para defender o direito a discriminação.
E afinal de contas estamos em um Estado Laico, ou deveríamos estar, e não podemos permitir que parcelas da população motivados pela religião tentem impor seus preconceitos a todo o pais.
Sobre o projeto de Lei - site contra homofobia
Site Oficial do PL 122
Texto da Rede PSi discutindo a diferença entre orientação sexual e opção sexual. Esta diferença esta no cerne da discussão pois muitos pastores acreditam que homossexualismo é doença, ou sem-vergonhismo e que pode ser "curado".
Texto do Blog do Bule Voador "Não tão laico assim" sobre a PLC122 e a influência dos evangélicos conservadores. E que motiva absurdos como convidar o criminoso para discutir a lei que o criminaliza conforme exposto no artigo do Túlio Vianna.
E dois vídeos interessantes:
Resposta do Bule Voador aos absurdos do discurso da Vereadora Mirian Rios, são essas bobagens que eles querem ter o direito de continuar falando.

Homofóbicos podem ser gays enrustidos? Documentário da BBC, explica uma parte do ódio homofóbico.


Eu ia colocar o debate entre a Prof. Iara Bernardi e um pastor evangélico no programa do Ratinho sobre o projeto de lei, mas prefiro não dar audiência para pessoas como este pastor. O vídeo está no Youtube junto com outros vídeos que mostra a cara de pau do mesmo pastor pedindo dinheiro para os seus fiéis.
E para relaxar um pouco apesar da seriedade do assunto a homenagem do Laerte à Família Bolsonaro e assemelhados preocupados com a "Ditadura Gay" retirado do Blog do Bule Voador.

 



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ELOGIO CRÍTICO À EDUCAÇÃO

Texto do Professor Marcos Francisco Martins publicado no Jornal Correio Popular, Campinas-SP, 25.08.2011, p. A2



ELOGIO CRÍTICO À EDUCAÇÃO


No dia 16.08 foi anunciada a terceira fase de expansão do sistema federal de educação superior pela Presidenta Dilma e pelo Ministro da Educação, Fernando Haddad. Pelo que foi veiculado, o referido sistema passará a contar com mais 4 Universidades Federais (no Pará, Ceará e Bahia), 47 novos campi de universidades existentes e 208 unidades dos institutos federais de educação, ciência e tecnologia. O que o governo federal pretende com os investimentos - R$ 7 milhões por unidade de educação profissional e R$ 14 milhões para cada campus universitário - é a abertura de mais 250 mil vagas de ingresso nas universidades federais e de 600 mil matrículas no
s institutos federais até 2014.
Na verdade, o anúncio da terceira fase do processo de expansão esconde e revela muitas coisas, as quais possibilitam elogios e críticas, sobretudo neste momento em que são anunciados cortes bilionários no orçamento e, com eles, se impede o pleno desenvolvimento e consolidação das Universidades Federais e dos campi criados na primeira e na segunda fase expansionista implantadas pelo Presidente Lula.
Em relação aos elogios, é preciso frisar que, desde o governo Lula, o sistema federal de educação fez avanços significativos, e isso depois de mais de 20 anos sem investimentos na estrutura física e nos recursos humanos. Destaque-se neste período a deprimente lembrança do governo FHC: reconhecido docente, deixou lamentável legado aos professores, alunos e técnicos administrativos, pois os fez amargar mais de 8 anos sem reajuste salarial, sucateou a estrutura física das Universidades Federais e, ao mesmo tempo, possibilitou e estimulou a abertura de inúmeras instituições de ensino superior privadas, que se proliferaram quantitativamente pelo País em proporções geométricas, mas sem qualquer compromisso com padrões mínimos de qualidade. O que fez o governo Lula e o que anunciou a Presidenta Dilma é continuar investindo firmemente na expansão da rede federal, o que é elogiável porque resgata a importância do sistema federal na educação superior brasileira e o reposiciona como destacado pólo indutor do desenvolvimento econômico e social regional e nacional.
Contudo, a expansão da rede federal de educação precisa ser avaliada com cuidado. É preciso saber que muito do que se anunciou na primeira e na segunda fase do processo de expansão ainda não foi consolidado e caminha a passos lentos para tanto. Há muitos prédios que não saíram do papel, laboratórios e salas de aula carentes de equipamentos científicos e didático-pedagógicos, professores e técnicos administrativos sem sequer a prometida recomposição salarial da inflação, vagas docentes sem o preenchimento, que passaram a ser ocupadas por professores substitutos depois da Medida provisória 525, de 14.02.2011, entre outras debilidades. A propósito, em função dessas e de outras carências, os técnicos administrativos estão em greve há mais de 40 dias, sem solução à vista, os professores de algumas Universidades Federais também os acompanharam e os que ainda não entraram em luta avaliam fazê-lo em breve.
Portanto, aos que defendem a educação superior pública, gratuita e de qualidade é necessário apoiar o processo quantitativo de expansão da rede pública federal de educação, e com o mesmo vigor, senão maior, é imperativo também lutar pela garantia de que o expansionismo seja feito de acordo com os históricos padrões de qualidade que identificam as Universidades Federais.

Marcos Francisco Martins, doutor em educação
pela FE-Unicamp e professor da UFSCar

domingo, 7 de agosto de 2011

Entrevista de Fernando Limongi para o Valor



Sem exemplos a seguir
Por: Maria Cristina Fernandes,  de São Paulo, no Valor, via Clipping Planejamento
05/08/2011
No tempo em que se dizia que o país precisava de reforma política para se tornar governável, Fernando Limongi publicou o livro definitivo – “Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitucional” (1999) – mostrando voto a voto que o Executivo não tinha embaraços em formar maioria. Quando o debate passou a ser dominado pela fisiologia paralisante das comissões de Orçamento, novo livro, também em parceria com Argelina Figueiredo – “Política Orçamentária no Presidencialismo de Coalizão” (2008) – mostrava que as emendas comprometem migalhas do investimento e que, ao rifá-las da lei orçamentária, se arriscava a empobrecer a representação.
Aos 53 anos, professor titular de ciência política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que presidiu de 2001 a 2005, Limongi continua incomodado. Não aceita a tese de que a amplitude da base aliada é a raiz dos problemas da presidente Dilma Rousseff nem que seu governo começa sob mais turbulência que os precedentes.
Em entrevista ao Valor, afirma que a maior novidade da conjuntura política brasileira é a unidade do PMDB, mas ainda se confessa aturdido pela tendência de fragmentação do quadro partidário que acreditava estar em processo de reversão.
Diz que a crise política por que passa o governo Barack Obama revela uma crise decisória no sistema político americano que não deveria servir de inspiração para nenhuma das democracias emergentes. E lança uma provocação aos compatriotas que não conseguem enxergar nenhum outro país mais corrupto que o Brasil: “Não há como medir a corrupção. Todos os indicadores são baseados em percepção que é um nome bonito para ‘pré-conceito’. É possível obter uma correlação quase perfeita entre índices desse tipo e pigmentação da pele. Os países africanos em geral aparecem como os mais corruptos e os escandinavos como os menos”.
“Governos custam a encontrar seu ponto de equilíbrio. Dilma parecia que não ia ter esse problema, mas é difícil botar a coisa para funcionar”
A seguir, a entrevista:
Valor: O governo Dilma Rousseff mal começou e já trocou dois ministros. Aliados se dizem apreensivos com seu estilo. Teme-se que colha troco lá na frente. Dilma corre o risco de se inviabilizar?
Fernando Limongi: Se você acompanha o início do [Fernando] Collor, do Fernando Henrique e do [Luiz Inácio] Lula [da Silva], todos começaram com um rearranjo muito profundo das bases. Collor superestimou seu poder e precisou reformular o ministério. FHC começou com um governo majoritário para aprovar legislação ordinária, mas minoritário para reforma constitucional. Para passar a reforma da Previdência, chamou o PP e rearrumou a coalizão. Lula também começou minoritário. Na primeira fase o [ex] PFL e o PSDB cooperaram, depois ele também refez o ministério.
Valor: A base excessivamente heterogênea do governo não é fonte permanente de tensão?
Limongi: O que ocorreu com o [Antonio] Palocci também ocorreu no governo FHC, que teve uma crise no caso de escuta telefônica na Casa Civil [conversa grampeada entre o embaixador Júlio Cesar dos Santos e o representante da Raytheon, empresa que disputava o Sivam, levou à queda do chefe de gabinete do presidente, Xico Graziano]. Esse tipo de problema sempre acontece. Os governos sempre custam a engrenar e a encontrar seu ponto de equilíbrio. Dilma, por ter maior continuidade com Lula – com o fim do governo, não com seu início -, parecia que não ia ter esse problema de ajuste, mas é sempre difícil botar a coisa pra funcionar. O governo começa, tenta achar o prumo e encaixar as peças. É o contrário da ideia da lua de mel, do período de graça. Só com o início de governo é possível saber se as pessoas combinam com os cargos e as lideranças são de fato exercidas. Lula só foi achar o prumo quando Dilma subiu para a Casa Civil e botou a máquina para andar. Até lá, a visão era toda negativa porque a coisa não funcionava. Tinha-se grande expectativa de que [José] Dirceu ia ser o condutor, mas ele se mostrou muito aquém das expectativas. Além do mensalão, só deu problema e nunca foi o homem da máquina que se esperava.
Valor: Essa fase inicial de ajustes pode ser semelhante a outros governos, mas a base dela é mais ampla do que a de qualquer outro. São 17 partidos na base, sendo 7 representados no governo. A dificuldade de abrigar todos no primeiro escalão não é parte da explicação?
Limongi: Pode ser, mas não há evidências de que esse é o problema. Do ponto de vista das evidências, o que chama a atenção, e não se dá a devida atenção, é que o PMDB tem votado absolutamente disciplinado. Ter votado 100% unido no salário mínimo e no Código Florestal não é pouca coisa. O PMDB nunca teve essa unidade.
Valor: Qual é sua leitura dessa unidade?
Limongi: Essa unidade é politicamente construída. [Michel] Temer exerce uma liderança sobre a bancada que ninguém nunca teve. O PMDB sempre esteve em todos os governos, mas nunca com essa disciplina. Isso é disciplina de PT. O PMDB hoje tem mais cadeiras e representação nacional do que qualquer outro partido. Está jogando diferente. Se há tensão no interior da base por espaço, o PMDB vai ocupá-lo. O partido já não era pequeno no fim do governo Lula. E agora joga com unidade para aumentar seu espaço. Todo mundo falou do seu lado fisiológico ou ruralista no Código Florestal. Até pode ser que o PMDB tenha sido majoritariamente ruralista, mas e o PCdoB, que votou igual?
Limongi: É parte da estratégia política do PMDB, e não necessariamente o partido é o mal. Não existe um lado do bem e do mal, como todo mundo tende a ler. Meus filhos de cinco e oito anos podem pensar assim, mas as coisas são muito mais complexas. O Código Florestal tinha muitos lados, vi alguns debates e não conseguia saber de que lado eu estava. Ninguém, no fundo, sabia de que lado estava.
Valor: Mas o fato é que o governo foi derrotado na votação…
Limongi: Em situações semelhantes outros governos sempre foram mais ambíguos, mais coniventes e dançaram conforme a música. Dilma bateu ficha numa questão difícil. FHC e Lula sempre fugiram pela tangente nessas horas, fizeram algum acordo que diluía o embate. Lula decidia por decreto no tema. Dilma não diluiu. Talvez tenha sobre-estimado forças, não tenha querido voltar atrás, perder imagem. Ex post foi desnecessário, até porque ainda tem Senado e a negociação vai e volta.
Valor: Essa disposição de bater ficha, no limite, não pode comprometê-la com a base?
“Olhando para o que acontece nos EUA e Europa, ideias de que o Brasil tem sistema político que atrapalha a economia é história para boi dormir”
Limongi: As demissões nos Transportes vão na mesma direção, muito menos panos quentes do que normalmente se coloca nessas questões. O curioso é que quando ela compõe é porque está sendo conivente. Quando enfrenta é porque não tem jogo de cintura. O partido com o qual está brigando, o PR, teve problemas similares no governo FHC, quando ainda se chamava PL. Valdemar Costa Neto meteu-se num conflito que envolveu a Polícia Federal em Guarulhos. Saiu atirando e foi a partir daí que começou a construir a aliança com o PT. Quando o PL saiu do governo, Valdemar disse que cada um tem o porto que merece, falando que o Temer controlava o porto de Santos e ele, Guarulhos. Essa redefinição de espaços tem muito a ver com a renovação das cúpulas, que vai bater no mensalão. O PL era controlado por Álvaro Valle. Quando ele morreu, o controle passou para Valdemar. O PTB era controlado por aquele banqueiro do Paraná que foi ministro de FHC [José Eduardo de Andrade Vieira, do Bamerindus]. Aí o cara saiu e veio [Roberto] Jefferson. [Paulo] Maluf perdeu o controle do PP com a reeleição. Não se sabe como esses partidos são controlados. São extremamente centralizados e baseados em comissões provisórias. Seu eleitor votava numa direita tipo PFL, PDS ou PMDB, controlada por velhas lideranças mais acomodadas. Quando veio a transição PSDB-PT, começou a hemorragia na direita tradicional e esses partidos começaram a disputar espaço. É essa a malta que Dilma está tentando segurar em áreas com muito dinheiro, de Copa do Mundo e Olimpíada, e onde o Estado tem que se mostrar eficiente. Então decidiu enfrentar.
Valor: Sua aposta é de que, na indefinição de como se dará a relação de Dilma com esses partidos médios, o PMDB decidiu apostar cada vez mais na condição de fiador da governabilidade?
Limongi: O PMDB pode crescer muito aí. Não fiz os cálculos, mas acho que o PR é dispensável.
Valor: São 41 deputados…
Limongi: É, mas tem o bloco que o PR controla de todos os pequenos partidos de direita. Boa parte desses caras, se o governo falar “ó, ou joga direito ou tá fora”, não tem muito para onde correr. O PR não controla nenhum Estado, não tem nenhuma máquina.
Valor: Dilma tem sido persistentemente questionada sobre suas condições para lidar com essa base política, ao contrário de Lula e de FHC. Sua inexperiência nesse campo não pesa?
Limongi: Na verdade, no início dos governos Lula e FHC ninguém lhes reconhecia essas qualidades. Depois ambos viraram gênios. Dizem que Dilma é inexperiente, mas FHC nunca foi um cara prático. Dona Ruth é que administrava a conta corrente dele. Lula nunca tinha administrado nada, não tinha relação com a máquina do Estado. Dilma cresceu na máquina gaúcha e foi bater na Casa Civil. Foi superbem-sucedida e subiu como um foguete. Conhece como se governa, muito mais do que conheciam FHC, Collor, Itamar ou Lula. O que é que há no governo que a ministra da Casa Civil não conheça?
Valor: O controle da corrupção passa pela redução dos cargos comissionados?
Limongi: O problema é mais complicado do que parece. Algumas dessas questões que aparecem hoje são problemas e ambiguidades presentes desde o início do governo representativo de quem deve ocupar cargos, qual é o critério para a distribuição, se deve ser a competência ou o critério partidário. Nos Estados Unidos, esse é um problema desde o conflito federalistas versus republicanos no século XIX e até hoje não se resolveu. É verdade que esses conflitos por vezes são inadministráveis. O assassino de [Abraham] Lincoln foi um cara que não recebeu o emprego que esperava. Quem deve governar? Se forem os mais competentes, então quem governa são sempre os mesmos, os mais competentes. Mas você votou num partido para exercer o governo. O que a gente chama de loteamento é o exercício do governo partidário. Se o PT nomeia todo mundo e governa mal, a gente bota o partido para fora e vota no PSDB. O PSDB põe seus homens, se não derem no couro, que venha o próximo. Na coligação governista, o partido que tem quadros é o PT, mas o caso dos Transportes mostra que alguns partidos vão construindo ramificações com o setor privado e formando “quadros” em alguns setores.
Valor: E o combate à corrupção não passa pelo corte dessas ramificações?
Limongi: A gente não tem nenhuma forma de saber se a corrupção aqui é mais alta ou mais baixa do que no resto do mundo. O problema é óbvio: como se mede corrupção? Não pode ser medida objetivamente por razões óbvias. Os indicadores normalmente usados em pesquisas comparadas são indiretos e se referem à percepção. Muitas vezes essa percepção é um nome mais bonito para “pré-conceito”. Eu brinco que é possível obter uma correlação quase perfeita entre esses índices e pigmentação da pele. Os países africanos em geral aparecem como os mais corruptos e os escandinavos como os menos. Todas as indicações são de que a corrupção aqui é como em qualquer outro lugar. A Inglaterra, com esse escândalo da imprensa, mostra que quando os interesses privados chegam junto do Estado você não consegue mais distingui-los. De repente o cara está na Scotland Yard, de vez em quando ele está no jornal, ele vai na Scotland Yard… Esse é o jeito que os interesses se constroem. Não tem saída para isso. É um problema de assimetria de informações. Como é que você vai ter um setor de empreiteiras que seja verdadeiramente competitivo? Três ou quatro grandes empresas vão controlar o mercado. E quem vai contratar esses caras? No fim é o cara que era da empreiteira e foi para o Estado e de lá para o setor privado, e esses interesses acabam não se distinguindo como se gostaria.
Valor: O sr. diz que não há como medir se o Brasil é mais ou menos corrupto do que outros países. A que o sr. atribui, então, a difusão dessa convicção entre os brasileiros?
Limongi: É puro “pré-conceito”. Quem acompanha política em outros lugares do mundo sabe que coisas feias acontecem em todo lugar. Uma vez fui fazer uma conferência para banqueiros na Europa. Eles queriam saber como funcionava o sistema político brasileiro. Fui lá e mostrei que funcionava bem, que tinha lógica, que a forma como eles entendiam os sistemas políticos europeus poderiam ser usadas para entender o Brasil. Daí, no debate, um senhor começou a me espinafrar, dizendo que estava cansado de ouvir que os políticos brasileiros eram confiáveis, que as coisas aqui eram OK, e quando ele abria o jornal só lia notícias desabonadoras quanto às nossas práticas políticas, que o governo brasileiro só fazia aumentar o déficit. Quando ele acabou de falar, eu estava meio nas cordas e para ganhar tempo perguntei de que país ele vinha. Ele respondeu: Itália. Não precisei responder. Só “I see” com riso meio cínico bastou.
Valor: O sr. vê alguma relação entre a perda de prerrogativas legislativas e a ocupação dos aliados em desencavar os podres da República? As MPs têm saído com mais de 50 temas, tanto que uma recebeu o nome de “árvore de Natal”…
Limongi:: Na entrevista do Temer para o Valor, ele começa falando: “Participei de um grupo que elaborou uma medida provisória. Nós ficamos estudando e todo mundo participou”. Então quem fez a medida? Dilma não tem tempo para fazer isso. Quando sai uma MP, não é uma decisão unilateral do Executivo.
Valor: Pode ser uma costura partidária, mas que foge do âmbito legislativo…
Limongi: Se está saindo como “árvore de Natal” é porque todo mundo já deu “pitaco”. Quando o texto começa a tramitar, não foi Deus quem o criou. Todo mundo já botou a mão. O texto não é confeccionado a portas fechadas.
Valor: Mas a oposição não participa…
Limongi: Nem é para participar. Tem a tramitação para espernear. Quando passou a reforma das MPs no governo FHC, todo mundo achou que estava fazendo uma grande coisa. E, na verdade, foi um desastre institucional. A MP tramitava no Congresso, em sessão conjunta da Câmara e do Senado. Não atrapalhava a tramitação dos demais projetos nem travava a pauta. Agora a medida passa pela Câmara, depois vai para o Senado, tem um tempo para correr, e tem que apresentar emenda aqui e lá, mas ninguém sabe como funciona. O fato é que se o Congresso quiser rejeitar uma medida porque não é pertinente à matéria em tramitação, derruba. O regimento garante. Não tem essa de nosso Legislativo estar subjugado, isso é tudo bobagem.
Valor: Num artigo polêmico, FHC disse que a política tem que ser buscada fora das instituições, nos jovens e na internet. A maior surpresa de 2010, Marina Silva, não veio desse mundo?
Limongi: Marina, de fato, surpreendeu. Mas só foi tão bem votada porque Serra e Dilma perderam votos. Lula polarizou demais no fim da campanha, chamou para a briga e tirou votos de Dilma, que, pelo desempenho da economia, teve um resultado eleitoral aquém do esperado no primeiro turno. Tanto que seguraram Lula no segundo. José Serra cresceu, mas puxando um voto que não era dele, de quem achava que, por ter religião, não podia votar em Dilma. Foi um voto que também beneficiou Marina. Teve a coisa religiosa que surpreendeu todo mundo. Marina não conseguiu segurar nem o PV. Então tem um apoio muito difuso e desorganizado para ser considerado um trunfo. Tirante o PT, nenhum partido consegue penetrar na sociedade, mas o que os petistas têm de voto é muito mais do que têm de militância e penetração. É outro modelo de partido daquele do pós-guerra, que tinha células, militância, cobrava contribuição, fazia jornal e tinha escolinha. Hoje partido não precisa disso, vai à TV. Se é isso que FHC quer dizer, realmente mudou e não apenas no Brasil. Mas não é de hoje.
Valor: A internet, então, ainda vai demorar a dar as cartas na política?
Limongi: Deve ter muita gente tentando transformar o que se passa na internet em voto. Não vai ser espontâneo. FHC é sociólogo e sabe que não há nada de espontâneo nesse mundo de meu Deus. Tem que ter coisa organizada, estruturada. Onde isso tudo junta? No modelo institucional da eleição majoritária. Por isso PT e PSDB têm vantagem. Porque polarizam as eleições e coordenam a competição. PT e PSDB saem na frente na hora de lançar candidato à Presidência. Vai ter um candidato do PSDB, um do PT e uma terceira via. Marina vai ter que correr por fora para montar uma estrutura de campanha. Não vai ter os governos estaduais do PSDB nem a estrutura de governo federal do PT. Não vai ganhar pelo Twitter, até porque as pessoas, para votarem nela, precisam saber que ela tem chance de ganhar. Uma candidatura desastrosa do PSDB poderia fazer isso. Mas o PSDB teria que pisar muito na bola. A história é cheia de partidos que dilapidam patrimônio brigando internamente. Serra já fez isso uma vez e ameaça repetir ao resistir a ceder a liderança.
Valor: Se a tendência de polarização na eleição presidencial é tão forte assim, por que não afeta a disputa pelo Congresso?
Limongi: O resultado mais intrigante dessas eleições foi o descasamento entre as eleições majoritárias e proporcionais. A eleição presidencial vertebra a disputa nos Estados, que foi totalmente casada com a presidencial. Em todo Estado teve o candidato da Dilma e do Serra. E o PMDB ora jogou com um, ora com o outro. Agora, no Congresso, os sinais de que o número de partidos estava diminuindo desapareceram. E não apenas porque PP, PDT, PTB, que eram partidos médios, caíram e se igualaram ao PR ou ao PSB. PMDB, PT e PSDB também caíram. Pode ter a ver com esse terreno pantanoso que saiu da órbita do PSDB e caiu na do PT, mas ainda não está fazendo muito sentido. O que parece de fato diferente é essa coisa de o PMDB votar unido.
Valor: Esse pacto político pela distribuição de renda, contra o qual ninguém se rebela, não é o substrato dessa fragmentação tão acentuada?
Limongi: Há uma certa indistinção entre o PT e o PSDB quanto às propostas. A gente não sabe o que o PSDB teria para fazer de diferente do PT. O discurso do Serra foi da eficiência, faço-melhor-do-que-eles-que-só-seguem-nossa-cartilha. Mas não deu certo. O PSDB não tem realmente uma agenda alternativa. O PT, enquanto na oposição, conseguia fazer uma imagem de que era diferente e tal, que depois com o mensalão se viu que não era tão diferente assim.
Valor: E como conseguem polarizar o eleitorado se não têm propostas diferentes?
Limongi: Não é fácil entender qual é a percepção que de fato os eleitores têm dos partidos, se os veem ou não como diferentes e se essas diferenças são programáticas ou de outra natureza. Para saber essas coisas é preciso fazer pesquisa de opinião, entender como os eleitores organizam a disputa partidária na cabeça. E quando a gente lê pesquisa bem feita sobre esse tipo de coisa sempre acaba se surpreendendo. O que me parece interessante é que os partidos brasileiros podem não estar organizados como estavam os da Europa do pós-guerra, mas a divisão do eleitor é forte. Todo mundo diz que brasileiro é pouco politizado. Mas é o contrário. Nessa última eleição presidencial, minha filha mudou de escola e passei a levá-la à casa das novas amiguinhas. Chegava lá e os pais me perguntavam: “Voto em tal partido, e você?” Ouvi inúmeras vezes no metrô gente falando em quem iria votar. Passei duas eleições presidenciais nos Estados Unidos sem ouvir nenhuma pessoa falar sobre eleição presidencial. E estava dentro do departamento de ciência política de uma universidade. Isso é impensável no Brasil. Todo mundo emite opinião política o tempo inteiro. E todo mundo declara suas preferências. E isso não pode se dar sem que os partidos desempenhem um papel. O voto é obrigatório, mas sempre se pode votar em branco ou nulo. E, se os partidos não fossem capazes de mobilizar eleitores, a taxa de votos brancos e nulos deveria ser muito alta. Até foram em algumas eleições, mas caíram violentamente com o voto eletrônico. É possível que votações como a de Enéas, Clodovil e Tiririca venham de eleitores que os partidos não conseguem mobilizar. Sempre há um candidato com discurso antipolítica para o qual um caminhão de eleitores converge.
Valor: Muito se especula sobre o vetor político da chamada nova classe média. Essa seria a última eleição da distribuição de renda?
Limongi: Acho que leva algumas gerações para a ascensão social virar conservadorismo. Não acredito que o cara que subiu na vida em dois anos vai ficar defendendo o dele e virar conservador. O eleitor pode ser extremamente volátil, no sentido de que, se o PT amanhã vem com uma crise econômica e esses ganhos são perdidos de um governo para o outro, o eleitor pode se bandear para a oposição. Com isso estou de acordo. Foi o que aconteceu no segundo mandato de FHC. No primeiro, ele estava com tudo, distribuiu renda e fez crescer. Veio a crise, o eleitor bandeou para o outro lado. Mas se o crescimento se mantiver não vejo esse cenário.
Valor: A última vez em que a política balançou o mercado foi na eleição de 2002. De lá para cá, entra mensalão, sai mensalão, entra PR, sai PR, e a política não abala mais a economia. Por que houve esse insulamento? Por que ninguém se arrisca a mexer no dito tripé da economia?
Limongi: Não sei se foi a política ou se foi a economia que se insulou. No fim do governo, Lula fez um certo keynesianismo e ninguém se insurgiu contra. Até porque se saíssem batendo poderiam colher rejeição eleitoral. Os políticos observam e esperam se vai dar resultado. Se der, não criticam. Na hora em que der errado, a oposição vai sair criticando e aí o PSDB vai montar seu discurso alternativo. Se a economia continuar bem até 2014, não vai haver plano alternativo. O fato é que todo mundo foi surpreendido pelas mudanças estruturais no mercado de trabalho do Brasil, muito mais significativas que a Bolsa Família. O mundo político também parece ter sido surpreendido pelas conexões do Brasil com a China, que o tornaram menos dependente dos Estados Unidos.
Valor: Se a gente olha para o Congresso americano, vê o fracasso tanto das tentativas de aprovar uma regulação mais rígida para o mercado financeiro quanto esse embate republicano com o Obama. Como é que o sr. vê a resposta da política à crise financeira?
Limongi: A má qualidade do sistema politico americano é uma coisa inacreditável. Quem fica falando que o sistema brasileiro não funciona é porque não conhece o americano. Se tem um sistema político travado, parado, incapaz de produzir decisão, é o americano. É um sistema em que a Presidência tem pouco poder efetivo, depende muito de um Congresso que é capaz de barrar e está repleto de traidores. [Paul] Krugman afirmou em artigo recente que esse limite de endividamento foi renegociado e ampliado mais de uma vez ao longo do governo Bush. Que rever e readaptar o limite à realidade não teria consequência econômica alguma. Que o ponto é pura ideologia. Que os republicanos querem nocautear o Obama. Creio que ele esteja certo. Acompanhei in loco a reforma da saúde pública. Vi e ouvi os argumentos dos republicanos. É pura ideologia. Desculpe o exagero, mas é realmente primitivo. O reacionarismo é impressionante. E já radicalizaram dessa forma no passado. Fecharam o governo Clinton ao não aprovar o Orçamento. Tomaram uma tunda depois. No que fechou o governo, a população se voltou contra os republicanos.
Valor: Foi naquele momento que Clinton conseguiu a reeleição, não foi?
Limongi: Clinton estava morto e aí eles resolveram pisar em cima e espicaçar. E aí o Clinton renasceu e foi reeleito. Então é mais ou menos a mesma situação que Obama, só que agora em proporções muito maiores. A única coisa que os republicanos querem é corte de gasto e de imposto. Estão criando um sistema inviável. Todos os dados que se tem sobre desigualdade nos Estados Unidos mostram que aumentou uma barbaridade no governo republicano porque se cortou imposto no topo e gasto para base sem se conseguir, com isso, dar impulso à economia. É um exemplo de mau funcionamento do sistema político inacreditável. Faz a gente falar “puxa, estamos numa maravilha!”
Valor: Os EUA, ao contrário do Brasil, não têm um Congresso que reproduz mais ou menos as mesmas divisões da eleição presidencial?
Limongi: Nos Estados Unidos você tem a eleição presidencial e o “coattail”, que é o efeito do voto puxado pelo presidente sobre o Congresso. Mas depois você tem reversão no meio do ano – em geral, o partido do presidente perde cadeira no meio do mandato. Quanto perde é que varia. Obama perdeu muito porque o americano médio é da direita brava. Se existe um sistema político que dá veto a minorias, esse sistema é o americano. No Senado há o que se chama de “filibuster”, que é basicamente o direto de a minoria estender indefinidamente o debate, evitando que a matéria venha a voto. Se a minoria é contra, a coisa não vem a voto. Bloqueia. Para tudo. O que Obama passou de reforma da Previdência foi um negocinho desse tamanho sob um custo inacreditável. Aqui o presidente passaria aquilo tranquilo.
Valor: Os dividendos políticos dessa crise que já dura três anos é o crescimento da direita, em alguns países, como a Noruega, tragicamente?
Limongi: A Europa tem um problema grave, que é a pouca tolerância para com o imigrante. Tem dificuldade para assimilá-lo, ao mesmo tempo em que precisa dele. Há países que estão com crescimento negativo, como a Itália. Todo mundo sabe que eles precisam de mão de obra, mas não querem imigrantes. Vão acabar com déficit populacional. Todos os estudos mostram. Isso pode ser fonte de tensão política grande, mas qualquer projeção seria arriscada de como é que isso vai se resolver. Olhando para o que está acontecendo nos EUA e Europa, essas ideias de que o Brasil tem um sistema político problemático, que atrapalha a economia, a distribuição de renda, é história para boi dormir. Tudo se provou errado. Tivemos todas essas coisas sem reforma do sistema político.
Valor: E por que sistemas políticos tão vigorosos não conseguem dar uma resposta à crise?
Limongi: Esses sistemas políticos que sempre foram modelos estão embaralhados com um problema de decisão. O que pode mostrar que o sistema político é muito menos importante do que se pode achar. Há uma supervalorização das escolhas institucionais, uma expectativa de que se possa reformar tudo por modelos institucionais. Li recentemente uma citação do [Pierre] Rosanvallon [historiador francês], dizendo que logo depois da Revolução Francesa os caras começaram a falar em reforma das instituições, sempre com a expectativa de que assim se poderia eliminar todas as impurezas do sistema político. Estamos pensando isso até hoje.
Valor: Em meio a essa crise, os países emergentes têm reivindicado maior parte da governança global, mas há resistências dos ricos, que não lhes reconhecem maturidade institucional para dividir essa governança. Com que argumento se pode sustentar a justeza dessas reivindicações?
Limongi: Quem quer que olhe para o sistema político americano e seu desempenho recente colocará em questão essa ideia. O governo de Bush filho – aliás, imagina só se tivéssemos pai e filho eleitos em tão curto espaço de tempo em um país latino-americano – já começou com uma lambança institucional sem igual. Não se pode dizer que a eleição na Flórida esteve livre de fraudes e, mais, que as fraudes não influíram no resultado. Ao longo do seu governo, explodiram vários escândalos envolvendo financiadores das campanhas de Bush. Basta lembrar a Enron. Isso para não citar a invasão do Iraque, toda ela montada em relatórios discutíveis. Qual é a maturidade institucional do grande líder? E o pior é que não são só os republicanos. O livro do [Joseph] Stiglitz ["O Mundo em Queda Livre"], deveria ser leitura obrigatória. Mostra que os economistas que dirigiam os bancos que causaram a crise de 2008 foram convocados por Obama para resolvê-la. Não é apenas ideologia ou ideias básicas que guiam as políticas. São as pessoas. São os mesmos caras. E eles fizeram o que se esperava que fizessem: protegeram os bancos e deixaram os eleitores pagar a conta.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cerimônia de 60 Anos da CAPES e Prêmio Anísio Teixeira

Veja no vídeo abaixo a cerimônia no Palácio do Planalto com destaque para o discurso da Presidenta e o compromisso com o ensino público gratuito e de qualidade.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Universidade e movimentos sociais

Texto do Prof Marcos Francisco Martins, sobre a relação entre universidade e movimentos sociais. Publicado no Jornal Bom Dia Sorocaba, semana passada (1/7).

Em que pese diferentes opiniões que há na academia sobre a relação entre universidade e realidade, as instituições de ensino superior guardam longa tradição histórica comprometida com o respeito à diversidade de idéias e opiniões. E devem assim se manter, fazendo de seu espaço um ambiente plural, suscetível ás divergências, mas comprometido com o desenvolvimento econômico, social, político a cultural.

Toda universidade caracteriza-se por ser um uma instituição cuja atribuição fundamental é a de desenvolver três tipos de iniciativas: ensino, pesquisa e extensão.

O ensino caracteriza-se pela socialização, por diferentes meios, dos “saberes” e dos “fazeres” produzidos historicamente.

Nos dias atuais, o ensino de graduação almeja formar quadros para o mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que também deve patrocinar a elevação no nível cultural da comunidade acadêmica. Além, claro, de sua respectiva atuação sociopolítica, com vista à formação integral dos homens e mulheres.

Se cabem críticas, é porque algumas universidades deixaram de lado a formação humana e dedicaram-se exclusivamente à formação para o mercado que é inumano imediatista e utilitarista.

A pesquisa é por sua vez, a atividade cuja função é de produzir novos conhecimentos. É isso o que se faz por exemplo, nos programas de Mestrado e Doutorado.

A extensão compõe-se de um conjunto de atividades com o objetivo de levar os “saberes” e “fazeres” que circulam no interior das universidades para a comunidade.

O atendimento as demandas sociais, como os cursos gratuitos de educação de jovens e adultos, é exemplo típico de atividades de extensão, entre outros.

Dessa forma, a universidade ganha um papel relevante no que concerne ao desenvolvimento da sociedade, pois ao desempenhar adequadamente suas precípuas funções (ensino, pesquisa e extensão), pode se tornar indutora do desenvolvimento econômico, sociopolítico e cultural.

Legitima-se, assim, o encontro das universidades com as empresas e instituições que atuam no mercado, mas também a articulação delas, sobretudo as públicas, com os movimentos sociais e sindicais.

Eles são sujeitos dos processos de construção dos direitos e da conquista dos direitos e da conquista das condições básicas de vida digna. Orientam a realidade a um determinado rumo histórico, que deve ser o fim das explorações econômicas e exclusões sociais, políticas e culturais que caracterizam o desenvolvimento da sociedade capitalista.

Eis porque é mais oportuno o 1° Encontro UFSCar - Movimentos Sindicais e Sociais da região de Sorocaba, que se realizará nos dias 1 e 2 de julho e está sendo articulado em conjunto com 40 organizações e movimentos sociais da região.